Histórias Daninhas (edição de autor, 2012)

Histórias Daninhas, de Guilherme Pires e João Afonso.

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Capa e paginação de v-a — comunicação visual. Edição dos autores. Impresso na Guide, Artes Gráficas.

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«Felicidade
João,
 
o tempo urge, tornaste a não atender quando te telefonei e não posso deixar-te ignorante da nossa decisão, ninguém te encontra, onde andas? Sabe-se agora que os primeiros efeitos do surto foram mansos tremores no espírito, movimentos imperceptíveis, falou-se apenas de uma noite muda nos serviços de urgência dos países afectados. Começou no Norte, mas estes relatos têm ecos já no centro do mundo: há que fugir.
 
Foi durante a madrugada que a doença se desenhou nas pessoas. As primeiras notícias descreviam um impulso de felicidade espontânea: as gentes desligavam-se lentamente das rotinas, afirmando-se livres, despreocupadas; no volver das horas davam passos cada vez mais curtos, despachavam burocracias cada vez menos complexas, resolviam equações cada vez menos sinuosas; do vazio nas ruas ouvia-se o bruaá de diálogos presos nas esquinas; e assim sucessivamente. Quando a tarde dobrou a manhã, terão rejeitado a pele, assumiram a forma das sombras, lívidas perante os objectos, as mobílias, as máquinas.
 
Vi na televisão estrangeira uma jornalista a defender que não é doença, “it is sheer happiness” sorria ela a fitar o além-câmara. Não podemos acreditar nestas gentes com olhar de vidro, estão tomadas pelo surto e celebram os jardins sem crianças, os lugares sem movimento, os conservatórios sem música. É assim o amanhã, será este o nosso tempo?
 
E agora calaram-se; espero que a quietude ainda não tenha caído sobre ti; embora respirem, é incerto que pensem, porque não falam, não escrevem, não comem, não bebem; as notícias cessaram.
 
Temos de pegar pela mão em quem nos quer bem e partir para Sul. É por isso que te escrevo, João, já que não atendes o telefone.
 
Não será muito sensato, mas devo dizê-lo: desde que a noite caiu sinto nos lábios um sorriso bom, combato-o com fita-cola e alfinetes-de-dama; mas também as coisas sem vida parecem mais leves, e ouço-me por dentro, um eco surdo, digo e repito a palavra sim.
 
Acho que vi um livro pousado no ar, entre a mesa da sala e a alcatifa, tinha azul na capa: pareceu-me ver um pássaro azul. Estarei a enlouquecer?
 
Já não sei o porquê desta carta, mas não irei reler os primeiros parágrafos. Prefiro deitar-me fora de mim e observar o tecto.
 
Quão bela é a imensidão! O tudo é perfeito.
 
Ah, silêncio.
 
g.»